quinta-feira, 15 de março de 2012

O TIFO

Um agente infecciosos conhecido como Rickettsia é o causador do tifo. Alberga-se no organismo dos piolhos e sua transmissão para o homem se dá pela picada desses inseto, que o transferem para o sangue. A epidemia de tifo se instala com o aumento das infestações por piolhos numa população. Os aglomerados humanos com má higiene, frequentes nas guerras, campos de concentração, acampamentos militares e cadeias, ocasionaram a grande maioria das epidemias de tifo.
Depois que a Rickettsiai é introduzida no sangue, o paciente tem febre, dores pelo corpo,  mal-estar, indisposição e dor de cabeça.  Mas o maior dano ao ser humano se dá com as lesões que esse agente causa nos vasos sanguíneos, que ficam obstruídos. Áreas do corpo passam a não receber sangue adequadamente, e as lesões avermelhadas na pele progridem para a necrose, o apodrecimento do tecido, perdem braços, dedos ou pernas. Diante deste quadro, é fácil imaginar a alta mortalidade que o tifo causava e o aspecto pavoroso dos doentes.
O século XIV, como todos os anteriores, foi marcado por guerras constantes, porém com a diferença de que somente nesta época a Rickettsia foi levada para a Europa e a maioria de suas aparições na História deveu-se às guerras.
A doença entrou na Europa pelo sul da Espanha em 1489, através da guerra espanhola pela reconquista de Granada, último terretório mulçumano na Península Ibérica. De acordo com os relatos, dos 20 mil combatentes mortos na guerra, 17 mil  foram vítimas do tifo. Mais preocupante foi o regresso desse exército, que levava além de glórias da vitória, o agente responsável pela terrível doença.
As duas potênicas em ascensão, França e Espanha, travavam guerras por disputa de territtórios, acompanhadas dessa vez pelo tifo, presente então na Europa. O território intensamente disputado por esses dois Estados foi o italiano. O exército espanhol conquistou regiões ao norte da Itália e se preparava em defesa nos  territórios conquistados em Nápoles. Em Roma ocorreram epidemias de peste bubônica que acometeram o exército espanhol, além da falta de provisões devido a bloqueios marítimos feitos pelos genoveses na baía de Nápoles. Com fome e depauperados era inevitável que um exército espanhol de 11 mil homens não fosse massacrados por um exército francês de 28 mil homens.
Durante o cerco a Nápóles, o tifo acometeu os acampamentos franceses, causando o extermínio de sua força militar. Dos 28 mil combatentes franceses permaneceram vivos quatro mil fugitivos, determinando o poder espanhol sobre o papado e a Itália.                                           
Além de reinar nos acampamentos militares, a doença invadia as prisões européias, e por isso ficou conhecida como a "febre das cadeias". Os prisioneiros eram aglomerados em celas imundas, sem higiene e sem banho, o que deflagrava as infestações por piolhos e a disseminação do tifo.
Na Inglaterra, o que também assustou muito a população, foi o fato da doença disseminar-se pelos habitantes por meio dos tribunais. Em 1522, o tribunal de Cambridge, ao abrir sua sessão para o julgamento dos presos, recebeu-os na sala do castelo repletos de piolho transmissores do tifo. Em poucos dias, membros do júri, expectadores e oficiais adoeceream. Em outro julgamento o réu foi poupado do tifo, que se alastrou no tribunal. Dado o grande número de expectadores que tinham piolho, a doença disseminou de forma epidêmica. De volta para casa, as pessoas espalharam os piolhos com o agente causador do tifo entre familiares e vizinhos. Morreram cerca de quinhentos habitantes.
O tifo alastrava-se não somente nos acampamentos militares, mas também nas cidades que recebiam imigrantes e fugitivos das áreas de guerra. Assim em 1624, mais de dez mil habitantes de Amsterdã morreram, Lyon em 1628 sessenta mil mortes. Nuremberg em 1632: cinco mil civis. Milão em 1629: sessenta mil pessoas, quase metade dos seus 130 mil habitantes, Mântua perdeu 25 mil habitantes, colmo 42% de sua população, Pádua, 59%, Verona 61%, República de Veneza, uma das mais populosas com 140 mil habitantes, morreram 46 mil.
Até o final do século XVI, era comum surgirem epidemias de tifo isoladas nas cidades.

quarta-feira, 14 de março de 2012

A PESTE BUBÔNICA

A ORIGEM DA DOENÇA:

As rotas marinhas mantinham íntimas relações comerciais com o Oriente. Gênova estava em contato com cidades do mar Negro, em especial na região da Criméia. Assim foram se tornando cada vez mais frequentes encontrar comerciantes genoveses levando mercadorias do Oriente para a Europa. Esta harmonia terminou quando a Criméia foi atacada pelos tártaros originários da Ásia.
No ano de 1347, os tártaros atacaram a cidade de Kaffa (hoje, Feodósia), sede comercial do genoveses. Montaram um cerco enclausurando os genoveses no interior dos muros. Durante essa ação, nos acampamentos dos tártaros, disseminou-se uma doença letal, a peste bubônica. Os tártaros adoeciam um a um e o número de mortos aumentava a cada dia, o que os impediu de continuar o cerco à cidade e os obrigou a recuar. Há relatos que os mortos eram arremessados por cima dos muros por catapultas, com a intensão de espalhar a doença entre os genoveses, o que representou a primeira tentativa de guerra biológica da História. Não se sabe quanto conhecimento os tártaros tinham sobre a doença, mas essa atitude pode refletir que tivessem algum, talvez de seu contágio.
Os genoveses ficaram aliviados quando os inimigos recuaram. Voltaram a reconstrução odas áreas destruídas. Os tártaros se foram, mas deixaram os ratos com o bacilo da peste em suas pulgas. Estes roedores habitavam as áreas de armazenagem de alimentos e mercadorias, locais próximos aos navios. Foi assim que os genoveses retornaram ao Mediterrâneo levando nas embarcações um viajante novo, que seria responsável pela maior calamidade vista na Europa até então, a bactéria causadora da peste bubônica, a Yersinia pestis.


UMA APRESENTAÇÃO DA DOENÇA:

A peste bubônica é causada pela introdução da Yersinia pestis, com forma de bacilo, na pele da pessoa. A introdução se dá pela picada da pulga do rato portadora do bacilo, este se desenvolve no local da picada e progride para os gânglios linfáticos próximos do local de sua inoculação.Os gânglios aumentam de tamanho com a formação de pus no seu interior, o que faz surgir o chamado "bubão", comum nas axilas e virilha por serem frequentes as picadas nos braços e pernas, respectivamente.
Caso atinja a corrente sanguínea, o bacilo dissemina-se por outros órgãos, é uma forma grave da doença, com maior possibilidade de levar ao óbito, instala-se: a peste septicêmica. Chegando aos pulmões, o bacilo pode ser eliminado pela respiração e tosse. Assim, suspenso no ar, os bacilos podem infectar outra pessoa por respiração ou inalação. Os que desenvolvem a doença pulmonar podem ter lesão nos pulmões, acarretando falta de ar e morte.
A peste bubônica pode ser introduzida numa região com o aparecimento de ratos, seus portadores, que têm pulgas já contaminadas pelo bacilo, ou com a entrada de imigrantes acometidos pela doença. Os ratos podem ser contaminados pelas pulgas infectadas que abandonarem os ratos mortos, o que potencializa a epidemia.
A vida medieval criava uma série de condições para a propagação da peste bubônica através da superpopulação de ratos.
Nas cidades existiam ruas e becos estreitos e mal iluminados , lamacentos e com excrementos jogados pelas janelas, além do hábito de criação de animais especialmente porcos, com carcaças destes animais jogadas nos riachos ou córregos repletos de ratos.



As Sujas e Apertadas Cidades Medievais

A privacidade não era importante na Idade Média, onde pessoas dormiam em um mesmo quarto. As famílias travavam uma luta contínua com as pulgas. Quando um dos seus membros adoecia era tratado pelos demais, que continuavam a dormir no mesmo quarto. Tais condições favoreciam não só a transmissão pela picada da pulga como por também via inalatória.
As cidades medievais acordaram num certo dia de outubro de 1347 como um dia qualquer. Mas neste dia impreciso, um certo navio genovês rumava à ilha da Sicília, e que mudaria a história de suas cidades....


OS PRIMEIROS CASOS...
Gênova, Sicília e Veneza foram as portas de entrada da peste bubônica na Europa ao final de 1347.
Na época os habitantes europeus viviam momentos difíceis. A Europa tinha uma super população, não havia mais terras para o plantio, muitas delas destruídas pelas guerras, sendo impossível aumentar a produção de alimentos.
Dessa forma a Europa entrou no século XIV enfrentando as primeiras grandes fomes.
Alguns autores apontam essa situação de fragilidade dos habitantes como fator contribuinte para a alta mortalidade ocasionada pela peste bubônica na Europa, onde a doença matou cerca de um terço da populaçãoem apenas 3 anos.
A peste bubônica caminhou para as cidades do norte, e a Itália foi um dos primeiros países que alcançou. Suas cidades, atingidas uma a uma, sem piedade, sofreram uma das maiores mortandades por epidemia ocorridas na Europa. Perderam metade dos seus habitantes, e jamais desconfiaram de que as dezenas de ratos em suas casas, que se alimentavam nas soleiras das portas, eram portadores de tamanho mal.


O triunfo da Morte, de Pieter Brueghel, "o Velho", pintado aproximadamente em 1562 uma cena em que a morte ceifa todas as vidas.


Em janeiro de 1348 a doença já alcançava as localidades do norte da Itália. Em Pisa, morriam quinhentas pessoas por dia. Florença, Veneza e Gênova perderam de um a dois terços de sua população. Em Veneza, ocorreu o pavor da peste bubônica chegar nas embarcações procedentes do Mediterrâneo, e a administração urbana decidiu que todas elas permanecessem isoladas na baía por 40 dias antes que os ocupantes pudessem desembarcar - nascia assim a quarentena.
Em julho do mesmo ano a peste já atingia a Espanha e a França. Este país também não foi poupado: morriam cerca de 500 pessoas por dia em Avigon e metade da população foi exterminada. Os dias amanheciam com filas de cadáveres às portas das casas e ruas. Os mortos eram então colocados em carroças lotadas e transportados aos cemitérios. Posteriormente  passaram a ser jogados nos rios.
Paris, com mais de cem mil habitantes, viu metade da sua população sumir pela doença, os cemitérios não podiam receber os oitocentos cadáveres que apareciam todos os dias.





Em meados de 1348 a doença foi levada da França para a Inglaterra e da Itália, atravessando os Alpes chegou às regiões da Suíça e da Hungria.
Ao todo a Europa perdeu um terço de seus habitantes. Estima-se que a peste bubônica tenha matado vinte milhões de pessoas.




MAPA DA PESTE BUBÔNICA

A população em desespero nunca tivera relato de nada igual, cabendo a Igreja orientá-la quanto às explicações e métodos para evitar o mal. Segundo os membros do clero, a peste era decorrente de castigo enviado por Deus para punir os pecados da humanidade. Deus enviou enraivecido pela quantidade de blasfêmias, avareza, usura, luxúria, cobiça e falsidade cometidas pelos mortais. Aumentaram assim as penitências na tentativa de evitar o castigo. A igreja foi obrigada a administrar a onda de autopunição que se alastrou pela Europa. Iniciou-se com grupos de flagelantes, entre duzentas e trezentas pessoas, que entravam nas cidades e pregavam a autoflagelação para cessar a ira de Deus.
Foi na Universidade de Paris, criada cem anos antes da peste chegar, que nasceu a primeira teoria científica sobre a doença; acreditava-se que o mal era transmitido pelo ar contaminado. Assim disseminaram-se pelas cidades medidas para impedir o contato com esse ar contaminado, e máscara foram adaptadas para evitar que ser respirasse diretamente o ar, fogueiras eram acesas nas encruzilhadas, as casas dos doentes eram isoladas e seus pertences queimados, cadáveres eram imediatamente enterrados, as limpezas das ruas e mercados foram  intensificadas. Os médicos punham máscara para atender os doentes.


Médico (usando máscara) que cuidava de doentes com a peste negra
De todas as medidas tomadas, a que gerou consequências mais desastrosas foi a tentativa de encontrar um culpado pra o castigo divino. Entre os culpados encontrava-se o povo judeu.
Inimigos do cristianismo, os judeus já eram segregados na vida cotidiana das cidades medievais havia muito tempo, marginalizados das atividades comerciais e impedidos de trabalhar nos ofícios diários. Também não podiam empregar cristãos, exercer profissão de médico de cristão, casar-se com cristão, possuir terras e construir sinagogas. Em decorrência desta marginalização, os judeus viviam em bairros e comunidades judaicas. Restavam-lhe trabalho autônomo tais como transações financeiras e empréstimos a juros, no qual foram se destacando e consequentemente aumentando a quantidade de devedores, motivo pelo qual a população não os via com bom olhos. Por isto eram alvos de constantes acusações e perseguições.
Graças ao hábito religioso de lavarem as mãos antes das refeições e não usarem água de poço e sim somente dos rios contraiam menos doenças infecciosas.
Esses fatos alertaram a população sobre a possibilidade dos judeus terem receio da água do poço pois poderiam ter envenenado estes.
Na época da peste bubônica, em que a população da Europa sucumbia a um mal não justificado, nada mais comum do que atribuir a culpa aos judeus, acusando-os de desencadear a doença.  Logo, deveriam ser excluídos das comunidades, para que o processo de peste terminasse. O que naturalmente favoreceria também aqueles a quem haviam feito empréstimos.
Em Narbonne, Carcassonne e Provença foram os primeiros judeus queimados em fogueiras, que se extendeu a várias outras cidades devido ao velho costume de se conseguir a confissão sob tortura.
Em Savóia mais 11 judeus foram queimados.
A perseguição seguiu o mesmo caminho que a peste bubônica, alastrando-se na mesma velocidade e trajetória da doença, do sul para o norte da Europa, quanto mais a peste se aproximava mais rápido se dava o extermínio.
Em Estrasburgo, semanas antes da doença chegar, mais de dois mil judeus tinham sido queimados, na noite de São Valentino, foram queimados vivos novecentos judeus. Acredita-se que só nesta cidade 16 mil judeus tenham sido mortos. A perseguição recomeçou quando a peste bubônica se aproximou de Mainz e Colônia: 12 mil judeus queimados. Houve um grande êxodo para terras que o acolhiam especialmente na Polônia e Lituânia onde permaneceram em descanso até o fatídico ano de 1939, início da Segunda Guerra Mundial.
A Igreja perdeu muita credibilidade diante da população. Membros do clero compravam cargos, vendiam indulgências, arrecadavam fundos para as cruzadas, relacionavam-se com prostitutas, tinham amantes e filhos e enfeitavam-se com artigos de luxo. Todas estas atitudes desgastaram a moral da Igreja, que decaiu ainda mais na época da peste bubônica, quando a instituição permaneceu impotente diante da população que sofria.
No entanto a peste bubônica serviu para aumentar as riquezas da Igreja devido ao incentivo de doação de indulgência.
A peste negra foi motivo de pânico na vida dos europeus nos quatro séculos seguintes. Após a peste negra do ano de 1347, a doença só desapareceria das cidades européias no ano de 1720, com a última epidemia em Marselha.

LEPRA; FOI REALMENTE LEPRA?

Originária da Índia  e da China, acredita-se que a lepra tenha sido levada para as proximidades do Mediterrâneo pelas conquistas de Alexandre o Grande. Mas o início do surgimento de um maior número de leprosos no território europeu coincidiu com o da época das cruzadas, no final do século XI.
Ao circular pelas cidades européias encontrou um população que não havia tido contato prévio com a lepra.
A Igreja tomou a dianteira do controle desses casoso, sob a orientação de suas crenças. No Antigo testamento hebreu, o Levítico descreve doenças de pele como impurezas da alma que afloram e por isso, as pessoas que as possuem devem ser banidas da comunidade para sua purificação. Diante do aumento de casos com o retorno dos cruzados, a Igreja sustentou que as lesões eram sinais de impurezas pelas quais as pessoas estavam sendo castigadas por Deus. Cada cidadão que surguia com manchas na pele tinha sua moral julgadas pelos vizinhos. Para manter o mundo cristão livre de imoralidades e pecados, era necessário procurar os que Deus estava punindo e bani-los das comunidades.


Na Bíblia, as doenças são descritas muitas vezes como castigos divinos. Essa ilustração medieval mostra Jó atingido pela lepra. Uma doença à qual o Levítico dá grande atenção é a lepra. No entanto, a lepra a que a Bíblia se refere nem sempre corresponde àquilo que chamamos de lepra.
No final de século XI, ocorreu o início da grande perseguição aos leprosos, que se perpetuaria por três séculos.
 Foi caracterizada pela descoberta de muitas pessoas com lepra, e estas foram segregadas das comunidades sob orientação da Igreja. Fica a dúvida sobre se o aumento de casos da doença foi uma epidemia verdadeira ou uma perseguição alucinada e frenética comandada pelos dogmas da Igreja, segundo os quais diversas doenças de pele recebiam um só diagnóstico, a lepra. Não é uma doença que se adquire facilmente, diferentemente de outras como a varíola, que se torna epidemia em pouco tempo.
Além disso, as pessoas com suspeita de ter a lepra, ou seja, as pessoas impuras , pecadores, sem moral - portanto, punidas por Deus com a doença, eram submetidas a exame de confirmação por um júri nada eficaz. Não se tinha experiência em relação a essa nova doença, o que tornava difícil seu diagnóstico apenas pelo exame das lesões. O júri era composto basicamente por pessoas comuns ou do clero, e muitos erros se cometiam. Dessa forma, milhares de indivíduos foram expulsos das cidades e condenados aos anonimato e a segregação, ingressando nas colônias de leprosos ou mendigando na periferia das cidades.
O leproso identificado era excluído da comunidade por uma cerimônia religiosa, a "missa dos leprosos". Era apresentado diante do altar com um capuz negro a cobrir-lhe a cabeça, e recebia sua sentença. Sob pena de excomunhão. Era proibido de exercer atividades diárias na cidade, lavar-se ou usar as fontes, entrar em lugares religiosos e tocar nas pessoas, principalmente nas crianças. Após as proibições, recebia um par de luvas, pão e um instrumento sonoro, uma matraca de madeira e ferro para anunciar sua chegada a lugares públicos.
Após a cerimônia, era levado ao portão da cidade, onde jogavam punhados de terra em seu corpo. Isso representava o ato final de banimento de leproso na sociedade medieval.



 "o padre deve ter uma pele na mão e com essa pele deve pegar terra do cemitério, três vezes, e pô-la na testa do leprosos, dizendo o seguinte: Meu amigo, é sinal de que estás morto para o mundo e por isso tem paciência e louva em tudo a Deus."

Em todo o tempo, os leprosos eram alvo de acusações e perseguições.  O ano da grande perseguição, em 1321, o rei da França, Filipe V, foi informado de suspeitas de que os leprosos estariam planejando o envenenamento dos poços da Franca. Filipe V reuniu-se com um conselho de inquisidores dominicanos, e decidiram organizar uma perseguição em massa dos leprosos para pôr fim à conspiração.
Millhares de leprosos suspeitos de envolvimento foram perseguidos. Por meio de tortura, obtiveram confissões, que levaram a outros cúmplices. Os inquisidores convenientemente chegaram a conclusões de que comunidades judaicas e os mulçumanos estariam patrocinando o plano dos leprosos. Assim a Igreja poderia agora perseguir não somente mulçumanos, mas também leprosos e judeus, assim como confiscar suas propriedades, enriquecendo a Coroa. Tornou-se uma perseguição em massa, que já não seguia nenhum critério de julgamento. Tornou-se um direito matar leproso.
No século XIV, houve uma diminuição da perseguição a esses doentes. Ao que tudo indica, a Igreja voltou-se mais para perseguir judeus, bruxas e hereges. Outro fator foi a  diminuição do número de casos foi a inovação judicial que colocou médicos no juri responsável pelo diagnóstico de caso suspeito de lepra.


Imagem da época mostra padre abençoando doentes de peste (Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

A IDADE MÉDIA


Após a queda do Império Romano, instalou-se na Europa uma vida rural que caracterizaria o sistema feudal. Do século VI ao X, a economia européia baseou-se nos sistema agrícola feudal. Os escravos foram substituídos por homens livres, mas ligados a terra, presos a ela, os servos.




Pintura da época misturando uma cidade medieval





A igreja, na Idade Média, adquiriu um poder excepcional. O cristianismo, com suas pregações de todos servirem a um só Deus, e com a idéia de que os sofredores ganhariam o reino do Céu alcançou grande aceitação na sociedade romana. Com a conversão de Clóvis, rei do francos, ao cristianismo romano, a Igreja ampliou seu reconhecimento e poder. No período medieval, firmou-se como grande proprietária de terras em toda a Europa. Os senhores lhe doavam terras com o objetivo de obter conforto para sua consciência pecadora e conseguir o perdão divino. A igreja se tornou a instituição mais rica da Idade Média, e com grande poder.
Cada feudo consistia em uma aldeia e terras aráveis, onde plantava-se o necessário: trigo, centeio, cevada. Nos bosques obtinha-se lenha, criavam-se animais, geralmente suínos. Na aldeia, transformavam as matérias-primas produzindo óleo, queijo, vinho, manteiga e farinha. Havia também as oficinas artesanais, onde eram produzidos utensílios para serviços de alfaiate, ferreiro, armeiro, sapateiro, fundidor, carpinteiro e pedreiro.
Por todos estes motivos fica claro que a principal riqueza era a posse de terras, motivo pelo qual ocorriam constantes disputas.
Enquanto a igreja se expandia e se fortalecia, arrematava para sua responsabilidade o conhecimento da medicina e os cuidados com os doentes. A arte da leitura restrigia a membros do clero, enquanto o continente abrigava uma populaçao de analfabetos.
A medicina monástica ,ou seja os tratamentos eram feitos em monastérios pelo monges,expandia-se pela Europa.



En Occidente, el Fundador de la Medicina Monástica fue San Benito de Nursia (480 – 547), funda el monasterio de Monte Cassino (529) donde se inicia la medicina monástica


A igreja fazia parte da vida cotidiana das cidades, ajudava os doentes, os mendigos, dedicava-se a vida cultural com bibliotecas. A dominação era tamanha que uma cidade só era reconhecida depois que uma igreja era construída. A Igreja influenciou todos com seu poder, todos aceitavam seus dogmas e crenças, e foi assim também nas situações de epidemia.
Todo este poder e domínio  iniciou-se aproximadamente no século VI e no século XI começaram as cruzadas, ou seja 500 anos!
Como já mencionado, no início da Idade Média, o sistema feudal determinava uma certa auto-suficiência que limitava, de certo modo a transmissão de doenças. Poderiam até ocorrer epidemias, porém estas ficavam restritos à aldeia, e não ocorria transmissão dos agentes bacterianos para outras localidades.
Somente nos séculos IX e X a população européia voltou a crescer , devido a escassez de epidemias e de grandes guerras. A produtividade agrícola aumentou, o que fez surgir o excedente para a comercialização.
Um fato novo ocorreu em novembro de 1095. O Papa Urbano II abriu o Concílio de Clermont. Uma imensa população de devotos acomodados em diversas tendas, das mais luxuosas às mais humildes, ouviu o apelo do papa para que se iniciasse uma grande marcha de cristãos armados para reconquistar as terras sagradas, em especial Jerusalém, em poder dos muçulmanos. Começavam as cruzadas.Seria considerada uma guerra santa, portanto, garantindo liberdade e perdão para que se cometessem atos violentos. Os combatentes teriam por recompensa uma indulgência para ganharem o reino do Céu, livres de pecados.


O Papa Urbano II, em gravura do século XIV

A I Cruzada Concílio de Clermont

Com o início das cruzadas a Europa entrou num período de fé exacerbada.. Nos acampamentos cristãos e nas cidades sitiadas, durante a marcha das cruzadas no Oriente, foram comuns as epidemias de diarréia por contaminação da água e dos alimentos com bactérias fecais. As cruzadas também impulsionaram as transações comerciais com o Oriente.

Ilustração da Batalha de Ascalon, no caminho para Jerusalém

 




 
"[...]tomai o caminho do Santo Sepulcro; arrebatai aquela terra à raça
perversa e submetei-a a vós mesmos"
 
Papa Urbano II - Discurso no Concílio de Clermont, 1095 

A população que era cerca de 42 milhões no ano 1000, passou a ser aproximadamente 73 milhões em 1300, a França praticamente triplicou sua população neste período.Em resumo, a Europa voltava a ter grandes aglomerados populacionais, o que favorecia a disseminação de infecções e epidemias.
No século  XIII nasceu as bases da Inquisição onde aumentava as busca dos cristãos desviados dos dogmas da Igreja.
No início do século XIV, os tribunais da Inquisição já eram fortes o bastante para arquitetar heresias e utilizá-las como pretesto para perseguir, como fizeram com a Ordem dos Templários, uma das mais conceituosas e poderosas da Europa, com riquezas incalculáveis.
A Igreja comandou a vida cotidiana dos europeus, ditou regras, julgou e condenou atos da população. Nos momentos de epidemia, era responsável pela interpretação do mal que se abatia sobre a população desesperada por não saber sua causa. Os germes transitavam sem serem vistos, logo jamais seriam acusados pela igreja. Duas epidemias naquela época mereceram destaque : a Lepra e a peste bubônica,



sexta-feira, 2 de março de 2012

DEUSES; GUERRAS E EPIDEMIAS

GUERRAS E DEUSES

 Os povos antigos acreditavam que os fenômenos da natureza assim como das infecções fossem obras divinas, pois em muitas situações guerras foram definidas por epidemias. No final do século VIII a.C., Ezequias, rei de Judá atribuiu à doença a defesa divina de Jerusalém. O deserto assírio sitiou a cidade para invadi-la, mas uma epidemia virulenta acometeu o acampamento, que não apresentava boas condições higiênicas, assim favorecendo a contaminação e disseminação da doença, a Bíblia relata o extermínio de mais de cem mil inimigos de Jerusalém.
Se a doença era enviada por um deus, nada mais cabível para a cura do que recorrer a um mito:
O povo grego foi o que mais influenciou a cultura ocidental, acreditava-se que as doenças eram enviadas pelo deus Apolo. A guarda de seu filho, Asclépio foi dada ao centauro Quíron, de quem obteve grande conhecimento sobre o poder das plantas medicinais.
Os doentes se dirigiam aos tempos de Asclépio e eram acomodados nos pavilhões e se purificavam por meio de jejum, banhos e óleos. Posteriormente, adormeciam e tinham a chance de se curar pelo sono, no qual recebiam entidades que os curavam ou orientavam sobre os procedimentos terapêuticos. As mortes não tinham como explicação uma infecção e sim não terem se purificado adequadamente ou ser uma doença incurável




"Puro deve ser aquele que entra no templo perfumado. Pureza é ter pensamentos sadios."
Portal do templo de Asclépio




Asclépio tinha duas filhas: Higéia, responsável para manutenção e restauração da saúde do doente, que deu origem à palavra higiene, e Panacéia, responsável pelo conjunto das substâncias empregadas para a cura dos enfermos. Enquanto várias pessoas se aglomeravam nos templos, era plantada as primeiras sementes para entender as doenças infecciosas do modo mais racional.




Asclépio, com a serpente, e os filhos Higeia, Panaceia, Machaon e Podalírio.

  

HIPÓCRATES E AS PRIMEIRAS OBSERVAÇÕES CIENTIFICAS
 

A Grécia conheceu, no século V a.C., os escritos de um médico que influenciaria não só os anos seguintes, mas os próximos séculos, ele ficou conhecido como "pai da Medicina": Hipócrates. Hipócrates contribuiu para desvincular as causas das doenças das explicações dos deuses. Ele difundiu a teoria de que as doenças são ocasionadas pela natureza e que seus sintomas são uma reação do organismo. Hipócrates escreveu sobre as epidemias e atribuiu às alterações climáticas, ventos e frio a responsabilidade pelo aparecimento de determinadas infecções.
A água de regiões insalubres de pântanos também ocasionavam diarréias e a famosa febre quartã (malária). Hipócrates postulou que tais doenças vinham dessas áreas e que portanto,  devia evitar  moradia em locais alagados e pantanosos. Hipócrates não tinha condições de visualizar os microorganismos que provocavam a diarréia nem o agente causador da malária, entretanto sua conclusão foi de grande auxílio para os médicos da época . Começaram a ser interpretados os efeitos que o meio ambiente despercebidos -  causavam ao organismo humano.



 
"Aos doentes tenha por hábito duas coisas - ajudar, ou pelo menos não produzir danos."
Hipócrates

PREVENINDO EPIDEMIAS

Mesmo com  as crenças na origem divina das doenças e epidemias, não impediram que o povo da Antiguidade já tomassem alguns cuidados com a higiene e o saneamento. Os pântanos eram relacionados ao surgimento de doenças infecciosas, as famosas febres. Assim evitavam-se construções de cidades próximas a esses locais e posteriormente iniciava-se a drenagem e o aterro dos pântanos. 
Naquela época, ao longo do Mediterrâneo, existia a malária, responsável pelas febres originárias dos pântanos. Após a drenagem do pântano eliminava-se os reservatórios de água parada  e consequentemente o local de reprodução do mosquito. Jamais se relacionou o aterro ou a drenagem à extinção dos mosquitos, mas sim ao fim do odor desagradável que a região apresentava, ou seja, ao "mau ar" que provocava as febres. Isso deu origem ao nome da febre: malária. Esta relação de causa e efeito reforçava, culturalmente a importância de água limpa e higiene para a população.
Para Roma. a  importância de consumir água potável obtida em poços evitando a ingestão no rio Tibre,  foi o primeiro passo para o tratamento de água. Construiu-se o primeiro aqueoduto - Água Ápia - no final do século IV a.C. Com o crescimento da cidade o número de aqueodutos foi crescendo, fornecendo água limpa e potável para a população, no percurso dessas construções haviam bacias que funcionavam como piscinas para a sedimentação de impurezas o que tornava a água mais limpa.


Aqueduto do Convento de Cristo (Troço dos Pegões)
 Cerca de 7km de canalização em pedra
fonte: http://www.a-rsf.org/grupos/grupo-portugal disponível em 18/04/21012
È um aqueoduto portugês construído no século XVI e XVII.
O ângulo da foto nos dá uma idéia de como a água era transportada e o número de arcos dependia da intensidade da inclinação do terreno.
Aqueoduto romano Pont du Gard
fonte: http://blog.educacaoadventista.org.br/blog/profegreice/
 disponível em 18/04/2012



Além de dispor de água limpa, Roma tinha uma rede eficaz de esgotos subterrâneos.

Imagem cedida por Eric e Edith Matson Photograph Collection/Library of Congress Prints and Photographs Division
Um aqueduto romano que ia das Lagoas de Salomão para Jerusalém
fonte: http://ciencia.hsw.uol.com.br/tunel1.htm disponível em 17/04/2012




É curioso como este sistema eficaz tenha sido construído há dois mil anos em Roma e, após a decadência do Império, não tenha sido adotado nos séculos seguintes, mas apenas no século XIX. Pelo contrário, as cidades medievais não dispunham de sistemas de esgotos, os dejetos acumulavam-se próximos aos muros e fluíram para os rios, de onde a população muitas vezes retirava a água que ingeria
 
 


Toilettes públicas da Antiguidade Romana. Como se pode ver, não havia privacidade e os homens faziam suas necessidades conversando com outros homens tranquilamente e sem pudor. Aos pés de cada sanitário havia um canal por onde corria a água que servia para umedecer a esponja e se limpar depois do "social"


PROVOCANDO EPIDEMIAS

Na história da humanidade, as medidas que procuravam evitar as doenças convivem com outras que são responsáveis por seu surgimento. Mais que hoje, na Antiguidade, as guerras e as destruições foram fatores de expansão das epidemias.
No começo da século V a.C., a Grécia viu-se ameaçada de invasão pelo Império Persa. As cidades-estados gregas uniram forças contra o inimigo. A fome castigou os acampamentos militares persas que sentiram os sinais de sua fraqueza, comiam grama, capim, folhas e cascas de árvores para que pudessem sobreviver. O caos se instalou com o surgimento de uma epidemia de disenteria nos acampamentos  militares improvisados. A contaminação das águas de riachos e lagoas favoreceu a disseminação da doença que matou muitos guerreiros persas.
A bactéria causadora da infecção intestinal era eliminada pela diarréia no meio ambiente, contaminava a água e os alimentos ingerido pelo exército, fazendo com que a doença se alastrasse .
O debilitado exército persa foi derrotado em Platéias, e a Grécia livrou-se desta ameaça. Desta vez, as cidades gregas contaram com a ajuda das doenças infecciosas para  a defesa de seu território: "peste de Xerxes".
Em decorrência das guerras as cidades-estados gregas formaram uma associação com a finalidade de criar fundos; Liga de Delos. Como Atenas foi a principal responsável pela defesa da Grécia, coube-lhe a administração, o que fortaleceu seu poderio, formou-se o Império de Atenas.
O apogeu do Império Ateniense deu-se no período do comando do General Péricles (495-429 a.C.), por mais de 30 anos. Foi reconstruída a acrópole, iniciaram-se construções grandiosas como o Partenon, ginásios, teatros, estátuas e templos. Os habitantes usufruíram os benefícios do crescimento econômico, social e cultural. As crianças eram encaminhadas ao ensino com sete anos de idade, aprendiam a ler e escrever. A música era ensinada , e educação física era praticada com corridas, saltos.



O Partenon é um símbolo duradouro da Grécia e da democracia, é visto como um dos maiores monumentos culturais do mundo.O Partenon foi construído para substituir um antigo templo destruído por uma invasão dos persas em 480 a.C..


Partenon, numa suposta reconstituição artística
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Esta situação logo criou descontentamento em Esparta, a segunda maior cidade-estado da Grécia. Esta uniu-se com outras cidades  e investiram contra a hegemonia de Atenas, desencadeando a Guera do Peloponeso em 464 a 431 a.C. Rapidamente a qualidade de vida dos atenienses caiu; foram necessários reunir grande população de refugiados para lutar. Formaram-se aglomerados humanos nas casas e o excedente foi alojado em barracas e cabanas. As condições de higiene desfavoráveis, criaram um terreno propício para a disseminação de epidemias.
Em 430 a.C. uma epidemia alastrou-se sobre a população de Atenas. os cadáveres eram empilhados e moribundos eram reunidos nas proximidades das fontes limpas, alguns morriam em casa sem auxílios, abandonados. A epidemia dizimou cerca de um quarto da população o que facilitou a posterior subjugação para Esparta.
Em 508 a.C. Roma se tornou  a República Romana. Roma viveu uma expansão nas relações comerciais, dominou as demais cidades italianas e conquistou todo o território da península. Enquanto prosperava, eclodiu em 451 a.C. uma epidemia na cidade. As epidemias acompanhariam a história de Roma até a decadência da República.
Tanto Roma quanto cidades gregas almejavam o controle comercial das rotas do Mediterrâneo. A disputa culminou com o conflito pelos interesses econômicos pela ilha de Sicília.
A vitória romana na Sicília foi importante porque Roma conseguiu dominar a rota naval até o  norte da África.
Assim Roma empreendeu sucessivas campanhas militares, somando um número maior de territórios, dominando e recebendo fluxo de dinheiro. Houve saques, impostos, escravidão, safras, indenizações cobradas ao povo subjugado e explorações de jazidas, com a transferência do ouro e prata para o Estado romano. Dos territórios dominados eram enviados prisioneiros para o trabalho escravo em Roma. No final da República e do século I a.C., Roma dispunha de três escravos para cada cinco homens livres.
As imigrações começaram a ocorrer do campo para a cidade de Roma e aliada a constante entrada de escravos, provocou um grande crescimento demográfico. 
As transformações ditadas pelo crescimento da cidade de Roma foram as causas de um série de problemas urbanos. A população não parava de crescer, e sem condições financeiras de habitação, as pessoas eram obrigadas a morar aglomeradas em quartos baratos.
O apogeu das conquistas romanas ocorreu no século II d.C. O Império Romano era então cortado por uma rede de vias ligando diversas regiões da Europa, do norte da África e ao norte europeu e da Ásia a ilha Bretanha. Além das rotas terrestres, desenvolveu -se no Mediterrâneo uma circulação marítima também intensa.
Este vasto e eficiente sistema de transporte desenvolvido pelo Império Romano, criou condições para epidemias de outros continentes, Ásia e África, chegassem à Europa, e condições para as epidemias percorrerem áreas extensas - as primeiras pandemias da História. Como todos os caminhos levavam a Roma, a cidade foi o alvo das epidemias:
Na década de 70 d..C. enquanto os romanos comemoravam a inauguração do Coliseu uma epidemia procedente do Egito, devastou a região central da atual Itália, possivelmente de malária ou anthrax.
Em 125, agora como Império Romano, uma novam epidemia procedente da Africa atingiu Roma, talvez sarampo.
As tropas romanas, no ano 164, após combate, regressaram trazendo consigo epidemia que se alastrou pela Ásia menor, Grécia e Egito e atingiu roma em 166. Onde permaneceu por 15 anos.  No período desta pandemia na península, estima-se que um quarto a um terço da população italiana tenha sido dizimada. No auge da sua incidência, foram contadas duas mil mortes diárias em Roma, que não poupou nem o Imperador Marco Aurélio.
Acredita-se pelos relatos  que tenha sido varíola ou uma doença muito parecida.
No século seguinte, em 250, iniciou-se, na Etiópia, na África uma nova pandemia. Atingiu Roma depois de passar pelo Egito, causando a maior mortalidade e devastação na cidade de Alexandria. Instalou-se no Império Romano e os relatos descrevem cinco mil mortes diárias em Roma.
Diversos fatores contribuíram para a crise do Império Romano, escassez de escravos, número crescente de invasões dos povos bárbaros. No entanto  as epidemias foram coadjuvantes no declínio deste império. Tais catástrofes infecciosas causaram, em parte, a diminuição populacional em toda a Europa entre os séculos III e IV - estima-se de setenta milhões para trinta milhões de habitantes.
Século III d.C., na tentativa de salvar o Império Romano, este foi dividido em dois: o do Ocidente e o do Oriente, este denominado Império Bizantino cuja capital era Constantinopla .
No século VI d.C. o Império Bizantino estava em seu resplendor na época do Imperador Justiniano. Justiniano dedicou-se a tentativa de reconstruir o Império Romano  e empenhou-se na reconquista do Ocidente, mas seu sucesso foi efêmero.
Naquele período Constantinopla desenvolvia e crescia; as embarcações mediterrâneas agora convergia pra lá. Do Egito chegavam embarcações carregadas de trigo, seda e especiarias, navios procedentes da Índia , berço de várias epidemias. Essa rota provavelmente transportou ratos infectados. Os ratos levaram pulgas e a bactéria Yersínia pestis, causadora da peste bubônica.
Em 542, iniciou-se a pandemia da peste muito bem descrita pelo historiador Procópio; apresentava como quadro clínico um estado febril acompanhado de tumorações na virilha, axila ou embaixo da orelha. Se houvesse ruptura dessas tumorações com supuração, o paciente tinha chance de cura, caso contrário, apresentaria piora clínica no quinto dia , com letargia, delírio, vômito sanguinolento e morte. A disseminação da peste bubônica também foi favorecida pela eliminação da bactéria na tosse dos doentes quanto o acometimento era pulmonar.
Durante 4 meses morriam por dia cinco a dez mil pessoas, no primeiro ano acredita-se que tenha morrido trezentas mil. As pessoas trancavam-se em casa com receio que fluidos  sobrenaturais causadores da peste entrassem em suas casas quando estivessem dormindo. Várias cidades ficaram desabitadas em razão da morte de toda população.
Foi uma das epidemias mais devastadores naquela época, e não se sabe por que desapareceu da Europa depois disso. Quando retornou em 1347, mostrou que continuava sendo a epidemia mais temível.






 
La peste d'Ashdod ou le



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

LAGARTIXAS E DINOSSAUROS - RUBEM ALVES

 

 

É impressionante como Rubem Alves consegue sintetizar a história da humanidade neste livro infantil.




        Inicio meu blog com esta estória. Ao lerem as postagens  entenderão como  esta estória é a nossa história!


"Há muitos, muitos anos, as lagartixas viviam na floresta. Suas cores eram as mais variadas, brancas, pretas, vermelhas, amarelas. Mas numa coisa todas eram iguais, eram todas pequenas. O que era muito bom: qualquer oco de árvore era um abrigo, qualquer folha ou mosca lhe bastavam como comida, ser pequeno tem as suas vantagens, sobrevive-se com pouca coisa. "


No início de tudo era assim; todos  seres tinham o que precisavam para viverem , viviam em abundância. Mas uma certa espécie animal se sobressaiu perante as outras...

 

"Mas era preciso ter cuidado com uma árvore...
Seus frutos tëm o  poder de colorir e aumentar quem os comem....
As lagartixas brancas não eram iguais às outras, eram muito curiosas, queriam ficar grandes e coloridas. Ser pequeno, que coisa mais humilhante! Sendo grande todos nos olharão com respeito, seremos as rainhas das lagartixas, pela beleza e pelo tamanho! Queriam ser diferentes, queriam ser maiores. E, sem muitas considerações, comeram o fruto daquela árvore proibida..."


Esta espécie queria descobrir lugares novos, se espalhou por todo ambiente habitável do planeta Terra,  passou de nomadismo para sedentarismo.





"As transformações foram imediatas, viram as cores mais lindas cobrirem sua pele sem graça e seu corpo pôs-se a crescer. Como seremos temidas e respeitadas! "


A espécie se reproduziu, constituiu sociedades organizadas, domesticou animais e plantas. Ficou maravilhada diante de tantas descobertas! . Olhou ao seu redor; que mundo lindo e tudo isto pertence a mim! Suas riquezas são infinitas.
 



"Claro que tudo mudou. Um oco da árvore já não servia como abrigo, nem um pedaço de folha ou uma pequena mosca bastava como refeição. Eram conseqüências inevitáveis da sua nova condição agora lagartos. Punham-se a devorar numa única refeição, aquilo que as outras juntas não conseguiam comer em um ano inteiro. Mas não tinha importância. A floresta era muito grande, tudo parecia ficar cada vez menor".
 
 



"À medida que cresciam, árvores inteiras eram aperitivos para agora os dinossauros."


Novamente esta espécie esapalhou-se por todo os ambientes habitáveis. Mas agora era tudo diferente: já eram conhecidos o poder do aço e dos cavalos, já eram dominadas as técnicas de grandes navegações, já traziam consigo os germes: fortes aliados. As intensões também eram diferentes, agora queriam conquistar e dominar!

 

"Quem sabe chegaria o momento em que comeriam a lua e as estrelas?
Por onde quer que fôssem, suas patas enormes iam esmagando tudo, plantas, bichos. Por onde passavam iam deixando clareiras nas florestas, e onde outrora houvera matas verdejantes, agora,  só existia terra seca. Demorou mas o dia chegou. As florestas haviam acabado, só havia terra seca, e ali ficaram os dinossauros, com suas bocas enormes abertas, sem ter nada com que matar a sua fome.
As lagartixas continuavam vivas. Seus corpos pequeninos precisavam de muito pouco para sobreviverem. Pequenas plantas que os dinossauros nem mesmo viam, continuavam a brotar e isto era mais do que suficiente para a fome de cada dia."




"As lagartixas estiveram presentes na agonia dos dinossauros. Respeitosamente colocaram sobre seus túmulos um epitáfio, seus dizerem rezavam:”
“Morreram, não por terem sido fracos demais, mas por terem sido fortes demais”

 “Logicamente, grande parte do sistema-vida (95% são invisíveis), feita de microorganismos, bactérias, fungos e vírus, continuaria indiferente ao nosso trágico destino. Nós porém, teríamos sido banidos do cenário da evolução”
Leonardo Bof
 Teólogo.


“As bactérias viram nascer há 500 milhões de anos atrás todas as formas de vida aquáticas, 90% foram extintas para se tornarem terrestres. Há 65 milhões de anos tiveram a oportunidade de presenciar a era dos dinossauros e seu desaparecimento da face da Terra. Então viram uma nova forma de vida que seriam conhecidas como formas humanas.”
Stefan Cunha Ujvari
              Epidemiologista


´Meu único desejo é um pouco mais de respeito para o mundo, que começou sem o ser humano e vai terminar sem ele" Lévi Strauss